Os últimos dias de festival

por Beatriz Saldanha

18/07

O V Fantaspoa proporcionou combinações diversificadas de sessões, isto todos puderam comprovar, mas nenhuma tão insólita quanto Morte Por Noivado (2005) seguida de O Creme (2007) e Guerra Para Morte (1984).

Morte Por Noivado, de Philip Creager, até começa bem: uma noiva foge de seu casamento, mas, antes mesmo de planejar o próximo passo, é brutalmente assassinada pelo noivo ofendido. Este, por sua vez, é atingido por tiros da polícia e acaba sucumbindo ao coma, sendo cuidado pela mãe em sua casa. Ainda na cena do crime, o policial responsável pelos tiros decide surpreender sua própria noiva e rouba da mão da recém-assassinada a sua aliança. Desta forma, a jóia é repassada adiante de uma forma ou de outra, e o assassino em coma levanta-se à noite, em segredo, para matar a mulher que estiver em sua posse. A partir daí, Morte Por Noivado revela-se extremamente tolo e ingênuo, retratando as personagens femininas como cães diante de um osso, quando vêem o anel de noivado; uma idéia ultrapassada há, no mínimo, 50 anos. Tal obra-prima não poderia ter um único ápice, com duas cenas, portanto, dividindo o mérito: na primeira delas, um dos detetives encarregados do caso diz à irmã de uma das vítimas que as mulheres são culpadas de alguns homens aderirem a práticas homossexuais. Mais adiante, a outra detetive responsável pelo caso parece tomar chá de esquecimento e deixa o sentimentalismo falar mais alto, ignorando que está se tornando noiva com a aliança que vitimou todas as outras mulheres. Troféu de misoginia para Morte Por Noivado, se o Fantaspoa o oferecesse!

O Creme é uma comédia (?) francesa sobre um homem que está na disputa por um emprego, e deve decidir juntamente do seu concorrente qual dos dois merece o posto. Em uma noite de Natal, o homem ganha um creme facial e, ao aplicá-lo, é confundido pelas pessoas com um astro da música, ganhando assim vantagem sobre o seu concorrente. O curioso de O Creme está em seu aspecto paradoxal: seus atores reagem aos fatos de forma completamente apática, o que, supostamente, é a chave do seu humor. Porém, tanta indiferença mergulha O Creme no mais profundo marasmo e torna quase recriminável um riso inocente da platéia, fazendo parecer que o diretor Reynald Bertrand, em seu debute, não soube a diferença entre comédia e drama.

Em Guerra Para Morte um garoto é submetido a uma experiência científica que o influencia a matar os pais e acaba internado em um hospital psiquiátrico. Ao sair de lá, adulto, viaja com os amigos até uma ilha onde o cientista que o vitimou pratica experiências com humanos, transformando-os em mutantes assassinos. Esta é a sinopse do filme mais esperado do dia.  Dirigido por David Blyth, cineasta neozelandês que ministrou uma oficina de direção nesta edição do Fantaspoa, possui boas referências: uma atmosfera remetente a Blade Runner, o Caçador de Andróides (1982), e assemelha-se à fase mais celebrada do cinema de David Cronenberg. No entanto, diferente da filmografia do canadense, Guerra Para Morte revela-se hermético, fechado a interpretações. Sua conclusão frustrante é proposital, segundo o diretor, que não quis ceder às expectativas de um final maniqueísta, típico do cinema estadunidense – apesar de assumir ter planejado um filme nos moldes de Hollywood. Os espectadores da sessão tiveram um longo bate-papo com o diretor, que defendeu ainda que a filmografia de seu país não se limita a O Piano (1993) e ao cinema de Peter Jackson. Quem esteve atento à programação do V Fantaspoa conferiu boa parte da filmografia neozelandesa de Blyth.

19/07

Em sua última noite, o V Fantaspoa já deixava saudade. Na sala PF Gastal, da Usina do Gasômetro, a programação não poderia ser mais divertida. Uma combinação diversificada de quatro comédias fez a alegria do espectador.

Sangue na Estrada (2008), eleito pelo júri do V Fantaspoa como filme de melhor roteiro, faz uma brincadeira com filmes de horror, mais especificamente de vampiros. Divertidíssimo, entre suas melhores piadas estão algumas referências diretas à série de sucesso Buffy, a Caça-Vampiros (1997). Além disso, vale-se de diálogos completamente inusitados exprimidos por personagens, no mínimo, excêntricos, como um vampiro adolescente extremamente delicado e uma ninfomaníaca sem papas na língua.

Em seguida, o público finalmente pôde conhecer a atração por trás da misteriosa sessão-surpresa: Fanboys (2008). Aguardado por muitos, o filme tem enfrentado problemas de distribuição em seu país de produção, os Estados Unidos. A surpresa desapontou apenas um par de gatos pingados, que abandonaram a sessão logo no início. Os que permaneceram tiveram a preciosa oportunidade de conferir o badalado longa-metragem sobre quatro jovens fãs da série Star Wars que decidem ir ao rancho de George Lucas para roubar uma cópia de Star Wars Episódio I: A Ameaça Fantasma (1999), a fim de que um deles, um garoto com câncer em estado terminal, possa assistir ao filme antes do fatídico dia de sua morte.

Ao contrário do que possa parecer, Fanboys não é um filme dramático. Explora muito superficialmente a situação do rapaz doente, focando-se quase que exclusivamente em momentos absurdos e divertidos, praxe em exemplares semelhantes, como os filmes sobre fanáticos por rock Detroit Rock City (1999) e Tenacious D: Uma Dupla Infernal (2006). As participações mais do que especiais de William Shatner, Carrie Fisher e Billy Dee Williams tornam ainda mais atraente este filme para e sobre aficionados.

Patricia Gennice (1998), média-metragem amador realizado por Felipe M. Guerra, integrou a seleção das comédias na sala PF Gastal, divertindo o público com uma história no melhor estilo Depois de Horas (1985) e Curtindo a Vida Adoidado (1986): um rapaz é convidado pela garota mais desejada da cidade a ir a sua casa. Afoito com o convite inesperado, sai à procura de preservativos, mas acaba envolvido em uma série de acontecimentos com traficantes e assassinos profissionais, entre outros personagens insólitos, impossibilitado de chegar logo à casa da moça.

Além de diretor, Felipe cumpre todas as outras funções técnicas, e até assume com bom-humor os papéis de um homossexual sedutor e uma loira fatal – este último detalhe não pode faltar em um bom filme policial.

Curioso especialmente pelo pioneirismo (foi o primeiro filme totalmente produzido em Carlos Barbosa, interior do Rio Grande do Sul), torna-se menos divertido quando tomado por momentos tarantinescos, da metade até sua conclusão. Após a sessão, houve um debate com Felipe M. Guerra, que revelou à platéia as dificuldades enfrentadas e os estratagemas necessários para a realização do filme, e contou com simpáticos depoimentos do pai do cineasta.

O Monstro de um Olho Só (2008) foi a última atração do dia. Já saudosos do V Fantaspoa, os espectadores puderam assistir à história de um alienígena que toma posse do pênis de Ron Jeremy, famoso ator pornô, durante as gravações de um filme adulto. Possuído, o membro sai do corpo do dono para fazer vítimas no lugar. Como horror, O Monstro de um Olho Só carece de momentos climáticos e de suspense. Extravagâncias à parte, possui uma ótica nada convencional dos bastidores de gravação de um filme pornô, evitando qualquer tipo de clichê esperado. Inclusive, faz uma abordagem nostálgica e até melancólica da forma como o mercado erótico trata seus profissionais.

Quem freqüentou as edições anteriores do festival garante que este foi o melhor de todos – o que não é de se duvidar, com a diversidade de programação e a pluralidade de estilos e países contemplados pelas mostras. Isso cria uma expectativa ainda maior quanto à próxima edição, que tem a difícil missão de superar o alto nível apresentado este ano. Nos vemos em 2010, então!

Published in: on julho 29, 2009 at 12:35 am  Deixe um comentário  

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