13/07: Salmo 21, Escuridão e Amargo

A programação do Santander Cultural teve três ótimos longas-metragens. Curiosamente, todos eles, à sua maneira, falam sobre o mesmo tema, trauma de infância, e dão às tramas caminhos parecidos, com o retorno do protagonista à origem de seu trauma, proporcionando um confronto necessário com o passado.

Em Salmo 21 (2009), um padre perturbado por visões de sua falecida mãe é informado da misteriosa morte do seu pai e parte à sua cidade de origem a fim de saber mais sobre o acontecimento. Lá, ele se hospeda na casa de uma conturbada família que o hostiliza, mas, aos poucos, vai se lembrando de momentos-chave da sua infância. Horror sobrenatural, possui a típica aura dramática européia. É bastante frágil ao lidar com elementos horríficos mais tradicionais, como os momentos climáticos e as aparições dos fantasmas, sustentadas em exaustivos efeitos de CGI, mas é bastante incisivo em seu discurso anti-clerical. Uma das melhores cenas é protagonizada por Jonas Malmsjö, o irresoluto padre, e Per Ragnar, intérprete de seu pai, ator que também estrelou o sucesso sueco Deixa Ela Entrar (2008) no papel do protetor da pequena vampira.

Escuridão (2009) é mais leve, com momentos de humor protagonizados pelos membros da banda amalucada de rock da qual faz parte o protagonista, um homem que procura tranqüilidade para dedicar-se às artes plásticas e retorna ao casarão em que viveu quando criança na companhia dos pais e da irmã mais velha. Porém, começa a ser importunado pelos fantasmas de algumas crianças que, aos poucos, lhe revelam detalhes de seu passado obscuro. O filme marca o retorno do veterano diretor tcheco Juraj Herz ao cinema, depois de 12 anos de dedicação a produções televisivas. Herz iniciou sua carreira no horror há 40 anos, com o cultuado Spalovac Mrtvol, em que explora o tema do nazismo. Ainda que abordado de maneira diferente, o mesmo tema ressurge em Escuridão, em que se percebe uma tentativa do cineasta de se atualizar, acrescentando à trama a supracitada banda de rock e algumas dispensáveis cenas de consumo de drogas e sexo, incluindo lesbianismo.

O mais subjetivo entre os três, Amargo (2009) é um filme essencialmente visual. Com pouquíssimas linhas de diálogo, mostra três momentos da vida de uma mulher: sua infância, adolescência e maturidade. Como os personagens dos filmes anteriores, quando adulta, a protagonista retorna ao lugar em que passou a infância e, lá, é perseguida por um assassino com uma navalha. Os primeiros minutos do filme fazem valer o ingresso, através de uma contagiante atmosfera pesadelar e de ameaça sobrenatural que só se via nos cinemas de Dario Argento e Mario Bava. No restante da metragem, os diretores Hélène Cattet e Bruno Forzani, também roteiristas do filme, proporcionam um espetáculo para os sentidos, numa verdadeira poesia em 16 mm.

Beatriz Saldanha

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Published in: on julho 15, 2010 at 5:26 am  Comments (1)  

05 de julho: sessão comentada de O Jovem Tataravô

Na última segunda-feira (5), o Fantaspoa teve uma charmosa sessão de O Jovem Tataravô, de 1936. A razão da exibição, além do resgate da obra, é a divulgação do curso “O Horror no Cinema Brasileiro”, que acontecerá nos dias 10 e 11 de julho.

Em O Jovem Tataravô um homem arremata em um leilão uma misteriosa caixa que contém em seu interior uma fórmula egípcia de ressuscitação dos mortos. Imediatamente, ele convoca seus parentes e amigos para uma sessão de invocação através da qual chama o seu tataravô. O homem aparece no meio da sala em trajes de banho, vestido da maneira em que estava quando morreu há cem anos, afogado no mar. A partir daí, o velho, aliás… jovem redivivo sai pela cidade do Rio de Janeiro em busca de aventuras, galanteando todas as mulheres à sua volta.

Os pesquisadores Carlos Primati e Laura Cánepa participaram ao final da sessão de um rico debate que iniciaram esclarecendo aos espectadores que O Jovem Tataravô é considerado o marco zero do cinema de horror brasileiro por ser o primeiro longa-metragem com elementos sobrenaturais, como a reencarnação. O filme tem base no texto teatral O Tataravô, de Gilberto de Andrade – a peça ganharia uma nova adaptação nos anos 50, desta vez em tom de ficção científica, acompanhando a tendência cinematográfica daquele período; e foi dirigido por Luiz de Barros, responsável pelo primeiro filme falado brasileiro, Acabaram-se os Otários (1929).

Em um dos momentos mais interessantes do debate, Laura e Primati falaram sobre os problemas da pesquisa de cinema no Brasil, além da necessidade de uma intervenção do governo na preservação de filmes brasileiros, que sempre foram bastante negligenciados.

Beatriz Saldanha

Published in: on julho 7, 2010 at 5:37 am  Deixe um comentário  

03 de julho: curtas-metragens de animação

Repetindo o sucesso da sessão inaugural, o público novamente compareceu em grande número ao segundo dia do Fantaspoa. Ao preço de R$ 2,00 por sessão, os espectadores puderam conferir 36 curtas-metragens de animação, sendo oito deles brasileiros.

Freqüentemente estigmatizados como limitados e infantis, os curtas de animação integraram todo um dia da programação do festival e revelaram, em sua maioria, uma faceta bem diferente daquela preconceituosa.

Muitos dos títulos exibidos versam sobre temas que sempre afligiram o ser humano, como, entre outros, o amor e a morte. O exemplar brasileiro A Última Noite, de Guilherme Rezende (2008) e o espanhol The Lady and the Reaper, de Javier Recio Gracia (2009), são ótimos exemplares que unem ambos os temas, em uma abordagem bem-humorada. No primeiro, um casal de defuntos desfruta de um jantar romântico no cemitério e, no segundo, uma senhora deseja morrer para reencontrar o falecido marido, mas suas tentativas são frustradas por um jovem médico exibido, que insiste em salvá-la.

Entre os títulos estavam ainda Josué e o Pé de Macaxeira (2009), de Diogo Viegas, escolhido pelo júri popular como Melhor Animação Brasileira no Anima Mundi e O Jumento Santo na Cidade que Se Acabou Antes de Começar, de Leo D. e William Paiva (2006); ambas, simpáticas histórias de temática nordestina.

Diversas técnicas de animação foram empregadas nos curtas exibidos ao longo do sábado, da animação tradicional à digital, em terceira dimensão, além de stop-motion e outras. Os diretores britânicos Ben Richardson e Daniel Bird utilizaram desta última na criação do perturbador Seed (2009), que faz através dos personagens de um ovo e uma maçã que disputam por transmissões de rádio uma metáfora para a sobrevivência. Outro curta marcante, o alemão Hybris (2009), de Florian Schnell, Martin Minsel e Patrick Müller, mescla diversas técnicas, como rotoscopia, pixilation e filmagens reais, obtendo impressionantes texturas, de encher os olhos dos espectadores mais exigentes.

Beatriz Saldanha

Published in: on julho 5, 2010 at 6:14 am  Deixe um comentário  

Noite de abertura do VI Fantaspoa: “É Preciso Amar a Morte”

Aconteceu na noite de sexta-feira (02), no Cine Bancários, a sessão de abertura do VI Fantaspoa. Bastante disputada, com lotação total da sala e pessoas sentadas nos degraus, a sessão apresentou É Preciso Amar a Morte (2009), produção alemã integrante da mostra competitiva deste ano.

O filme é uma mistura de dois gêneros aparentemente discrepantes: horror extremo e comédia, mais especificamente, comédia romântica. Seu protagonista é um músico de estúdio frustrado com suas desventuras amorosas que organiza com um grupo, numa casa de campo afastada, um suicídio coletivo. Porém, os outros membros do grupo acabam prendendo-o e submetendo-o a seguidas sessões de tortura. Paralelamente, em flashbacks, é mostrada a última empreitada amorosa do protagonista.

É Preciso Amar a Morte divide em duas espécies de segmentos os trechos de cunho horrífico e os momentos românticos, enquanto a comédia é presente em ambos. Essa segmentação raramente funciona, fazendo com que os personagens e subtramas de um pareçam estranhos à narrativa do outro. Uma reflexão interessante, no entanto, é proposta em relação aos filmes “torture porn”; subgênero que, para muitos, já atingiu o seu limite de violência. Esse aspecto é inserido através dos algozes do protagonista, que filmam em forma de espetáculo para os espectadores do cinema suas vítimas sendo torturadas, algo semelhante ao polêmico Violência Gratuita (1997), mas utilizam do humor como elemento apaziguador.

Depois da sessão, os espectadores puderam conversar com o diretor, Andreas Schaap, que falou sobre as inspirações e influências para o seu primeiro longa-metragem, É Preciso Amar a Morte, que a despeito de eventuais falhas e inconsistências, é um impressionante trabalho de conclusão de curso de cinema, com acabamento profissional; e respondeu perguntas referentes à parte técnica do filme, à produção e ao conteúdo.

Beatriz Saldanha

Published in: on julho 3, 2010 at 7:58 pm  Deixe um comentário