Luigi Cozzi apresenta Black Cat e Paganini Horror no Fantaspoa

O horror tomou conta do Cine Bancários na terceira noite da mostra Luigi Cozzi no Fantaspoa. O programa duplo desta quinta-feira foi formado pelo raríssimo The Black Cat (O Gato Negro no programa oficial do festival, mas exibido a partir de uma cópia em VHS intitulada Filmagem Macabra) e o divertido Paganini Horror. Foram os dois últimos filmes dirigidos por Luigi Cozzi e ainda que não sejam o epitáfio digno de uma carreira que durou duas décadas, são obras das quais o veterano cineasta italiano pode se orgulhar tranquilamente.
The Black Cat merece lugar de destaque na filmografia de Cozzi por ser uma espécie de conclusão não-oficial da trilogia das ‘Três Mães’ de Dario Argento, precedida por Suspiria (1977) e Inferno (1980), e só concluída em 2007 com o desastroso La Terza Madre (lançado no Brasil sob o insuspeito título de O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas). Na conversa com a platéia ao final da sessão, Luigi Cozzi explicou que o filme surgiu de uma idéia de Daria Nicolodi, na época esposa de Argento e roteirista de Suspiria, que estava interessada em finalmente realizar a parte final da trilogia. Nicolodi a princípio seria a protagonista do filme, que deveria se chamar De Profundis (em inglês, From the Depths), mas Cozzi mexeu tanto no roteiro que ela acabou se desinteressando pelo filme. O que a princípio era uma sequência convencional da saga das três bruxas se tornou um filme sobre os próprios bastidores dessa produção, contando a história de um diretor e um roteirista que convencem um produtor a investir no filme, enquanto suas respectivas esposas brigam pelo papel principal, o da maligna bruxa Levana.
E onde entra o gato preto nessa história toda? Pois é, a princípio nem deveria entrar, mas Cozzi teve que enfiar um maldito felino na trama, num arremedo muito pouco convincente, para contentar um distribuidor norte-americano que havia anunciado o título The Black Cat, baseado no conto de Edgar Allan Poe, e precisava de um filme que correspondesse ao prometido. Desta maneira, De Profundis se transformou em Edgar Allan Poe’s The Black Cat, com a desculpa de que “todo gato preto é uma bruxa disfarçada”.
O filme é uma bagunça como a maioria dos filmes oitentistas de Cozzi, com um roteiro que abusa do surrealismo (o diretor defende a idéia de que os dois filmes da noite são uma mistura de horror e ficção científica), mas não deixa de ter momentos interessantes, além de esbanjar estilo, numa tentativa de emular a atmosfera tanto de Argento quanto de Bava, evocados na fotografia com o uso de filtros azuis e luzes com tons intensos de vermelho e verde.
Cozzi atribui o conteúdo histórico do roteiro ao vasto conhecimento de Daria Nicolodi em literatura sobrenatural, citando De Profundis (1857), do poeta francês Charles Baudelaire (transformado em ‘Boldlair’ ou coisa parecida na legenda do VHS nacional) e indo além, referindo-se ao livro Suspiria de Profundis (1845), de Thomas De Quincey, como a origem de tudo.
O filme acaba deixando de lado essa trama toda acerca da bruxa Levana e se concentra nos percalços que envolvem uma produção do gênero, um mesquinho jogo de vaidades no qual todo mundo tem que ceder um pouco em benefício do filme. A obra é imperfeita e longe de estar livre de defeitos, mas não deixa de ser interessante a maneira como Cozzi trata a rivalidade entre as atrizes e o que elas são capazes de fazer para ficar com o papel. O final, com moral de conto-de-fadas, pode ser interpretado como o processo de preparação de um artista que se deixa ser engolido pela obra, criando ao seu redor uma espécie de blindagem emocional criando uma ilusão de vida ideal, fazendo com que sua grande rival se torne sua melhor amiga e o marido (que estava prestes a se divorciar dela) seja o alicerce da família feliz.
A seguir, novamente com sala lotada e gente sentada nos degraus, foi exibido Paganini Horror, que pelo menos cumpriu bem sua função de divertir a platéia, que não se intimidou em rir nas partes mais absurdas (a cena do fungo mortal oriundo da madeira usada na fabricação dos violinos Stradivarius é do tipo ‘ver pra crer’). O filme é sobre uma banda de pop rock formada por três garotas e um baterista que, em busca do sucesso garantido, adquire a partitura de uma composição inédita de Niccolò Paganini, o violinista italiano que dizem ter vendido a alma ao Diabo.
A produtora da banda, ao saber da novidade, tem a idéia de gravar um videoclipe numa mansão sinistra para promover a canção, afinal nunca ninguém fez nada parecido antes (“exceto Michael Jackson com a música ‘Thriller’ e seu sensacional videoclipe!”, fazem questão da salientar, num dos diálogos mais impagáveis do filme).
Quando chegam à tal mansão, cuja dona é ninguém menos do que Daria Nicolodi, não demora para que o fantasma do violinista maldito comece a despachar os intrusos com requintes cruéis do melhor estilo slasher (muitas cenas nessa mesma linha tiveram que ser eliminadas quando o orçamento foi reduzido durante a produção).
Entre as atrações de Paganini Horror estão as canções interpretadas pela banda de garotas, as quais Luigi Cozzi admite não serem de seu agrado, “mas foi o que pudemos fazer com o curto orçamento”, defende o diretor. O detalhe problemático é que as duas principais canções são plágios escandalosos de músicas de sucesso: uma é “You Give Love A Bad Name”, do Bon Jovi, cuspida e escarrada; a outra é a cara e o focinho de “Twilight”, do Electric Light Orchestra.
No bate-papo ao final da sessão, Cozzi falou sobre o prazer de ter trabalhado com Donald Pleasence neste filme (no qual ele interpreta o próprio Diabo) e citou como exemplo contrário as extravagâncias que teve que aturar de Klaus Kinski durante as filmagens do desastroso Nosferatu em Veneza, no qual fez pouco mais do que filmar o ator caminhando a esmo sob a luz do amanhecer, simplesmente porque era tudo que Kinski tinha vontade de fazer.
Cozzi ainda falou sobre sua paixão pelo cinema, que surgiu quando ele viu o clássico Vinte Mil Léguas Submarinas (1954), da Disney, ainda quando era criança, o fim do cinema italiano, engolido pela televisão e sua política que visa exclusivamente o lucro, e o prazer de trabalhar nos Estados Unidos em Dois Olhos Satânicos, onde teve o apoio de uma equipe técnica jovem e empolgada, em contraste aos velhotes desinteressados que normalmente encontrava na Itália.
Ao final da sessão, finalmente decidi pegar um autógrafo com Luigi Cozzi. Soletrei meu nome a ele dizendo que era “igual Carlo Ponti, mas com ‘s’ no final”. Ao ver a Bia ao meu lado, também a postos para pegar um suvernir, Cozzi comentou, com um largo sorriso: “Então ela só pode ser a Sophia Loren!”. Tem como alguém ser mais simpático?
Quem está em Porto Alegre e ainda não teve o prazer de encontrar Luigi Cozzi, hoje à noite é a última oportunidade: às 20h30, após a exibição do giallo Matador Implacável, acontece no Cine Bancários um coquetel em homenagem ao cineasta italiano, seguido pela projeção da versão restaurada de 4 Moscas Sobre Veludo Cinza e um debate sobre a parceria de Cozzi e Argento.

Carlos Primati

Published in: Sem categoria on julho 9, 2010 at 6:27 am  Comments (1)  

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  1. Fico muito feliz em saber que o público está comparecendo em massa, lotando as sessões. Cozzi não deve esquecer todo esse carinho e alegria que está recebendo dos fãs brasileiros tão cedo.


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